Começo a conhecer-me.

outubro 18, 2011

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"Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram.
O segredo da busca é que não se acha.
Para onde vai minha vida, e quem leva?
Por que faço eu sempre o que eu não queria?
Não sou eu quem escrevo. Eu sou a tela
e oculta mão colora alguém em mim."



    - Fernando Pessoa -

A Morte dos Girassóis

outubro 08, 2011

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"Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas. Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir."

- Caio Fernando Abreu -
 Van Gogh - Os Girassóis
 
 

Carta de Abelardo a Heloísa

outubro 07, 2011

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Abelard et Heloise - iluminura medieval
 "Fujo para longe de ti,
evitando-te como a um inimigo,
mas incessantemente
te procuro em meu pensamento.
Trago tua imagem em minha memória
e assim me traio e contradigo,
eu te odeio, eu te amo."
 

Nem aí...

setembro 12, 2011

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Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho

se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema 

             - Ferreira Gullar -

VOY A DORMIR

setembro 11, 2011

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Dientes de flores, cofia de rocío,
manos de hierbas, tú, nodriza fina,
tenme prestas las sábanas terrosas
y el edredón de musgos escardados. 

Voy a dormir, nodriza mía, acuéstame.
Ponme una lámpara a la cabecera;
una constelación; la que te guste;
todas son buenas; bájala un poquito. 

Déjame sola: oyes romper los brotes...
te acuna un pie celeste desde arriba
y un pájaro te traza unos compases 

para que olvides... Gracias. Ah, un encargo:
si él llama nuevamente por teléfono
le dices que no insista, que he salido...

(Soneto de despedida de Alfonsina Storni)

A FLOR

agosto 19, 2011

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Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.

Cada ferida — perfeita —,
fecha-se numa minúscula imperceptível pétala,
causando dor.

Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta.

- Robert Creeley -

Lavoura Arcaica

julho 25, 2011

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"E eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto do bosque mais sombrio eu deixei que o vento que corria entre as árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando abaixo delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida"
Raduan Nassar
  

O outro

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O tempo é marcado pelas pessoas,
pelas situações de interação humana.

Sem o outro, a vida se torna plana;

não tem marco,
não tem mudança,
não tem medida.

O tempo sem o outro não tem vida.

Fazendeiro do Ar

julho 12, 2011

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 Carlos Drummond de Andrade

maio 28, 2011

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Não compreendo nada de nada.
Tanto mistério existe no crescimento de um grão de trigo,
quanto no movimento das estrelas.
Mas bem sabemos que somos os únicos capazes de amar,
e é por isso que o menor dos homens
é maior do que todos os mundos reunidos
- Guy de Larigaudie -


O Outro

maio 21, 2011

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Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio 
Que vai de mim para o Outro
 
- Eu não sou eu nem o outro/Mário de Sá-Carneiro -

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abril 11, 2011

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“Seja em palavras ou em cores, em notas musicais ou em mármore, 
por trás das máscaras pintadas dos personagens de uma peça de Esquimó, 
ou através dos entalhes que ornamentam a flauta rústica de um camponês siciliano, 
é preciso que o homem e a sua mensagem sejam revelados.”

                                                                                                         - Oscar Wilde -
 

Dedicatória à sultana Sheraá

março 25, 2011

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Encanto dos olhos, tormento dos corações, luz do espírito,
não beijo a poeira dos vossos pés porque não costumais andar,
ou só o fazeis sobre tapetes do Irã ou pétalas de rosas...

 - Extraído do livro "Contos", Voltaire - 

O poeta e a lua

fevereiro 18, 2011

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Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esfera nitentes
Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de luxúria.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perpassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

                                                                      (Antologia Poética - Vinícius de Moraes)

fevereiro 14, 2011

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Procuremos somente a beleza,
que a vida
é um punhado infantil de areia ressequida.
Um som de água ou de bronze 
e uma sombra que passa... 

- Eugênio de Castro -

Uma vez só na vida

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The kiss detail - Gustav Klimt
Só acontece uma vez,
não duas,
0s momentos sumindo feito ratinhos
que passam correndo pela vida,
depressa demais,
e apenas para os muito corajosos
os fortes,
os verdadeiros,
e quando o momento chegar
não o deixe passar por você,
pois num piscar de olhos
o amos se vai,
o momento morre,
fica um ressoar vazio
dentro da cabeça,
o seu coração saberá
quando o destino sussurou ao seu ouvido...
Ah, não tema,
querido amigo,
pois no final vale a pena
o preço,
o custo,
quando tudo esta perdido
mas se ganhou o amor,
quando o verdadeiro amor chega,
só existe um.
                                   - Danielle Steel / 1982 -

La hoguera donde arde una // A Fogueira Onde Arde Uma

fevereiro 05, 2011

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Foi o primeiro a me acusar de
Sem provas e talvez doendo-lhe
Mas havia os que
É sabido em um povo perdido entre
O tempo pesa e move, e somente cada
Gente que vive de teias, e de lentas
Por acaso tem coração, porém quando falam é
De que podia ele me acusar se só havíamos ?
Impossível um mero despeito, depois daquela 
(talvez a lua cheia, a noite em que me levou 
Morder no amor não é tão estranho quando se 
Eu havia gemido, sim, em algum momento pude
Depois não falamos disso, ele parecia orgulhoso de
Sempre parecem orgulhosos se gememos, mas então 
Que memória diferente terá o ódio quando segue ao ?
Porque nessas noites nos queríamos mais que 
Sob a lua, em areias, enredados e cheirando a 
(eu o terei mordido, sim, morder no amor não é tão 
Nunca me disse nada, somente atento a
Perfumava meus seios com as ervas que minha mãe 
E ele, alegria do tabaco na barba, e tanta 
Nunca choveu quando íamos ao rio, às vezes 
Esse lenço branco e negro, passava-me lentamente enquanto
Nos chamávamos por nomes de animais doces, 
de árvores que irrompem 
Não havia fim para o interminável começo de cada 
(eu o terei mordido, ele cravado em mim e me
Em algum momento misturavam-se nossas vozes quando
Podia ter durado como o céu verde e duro nas minhas
Porque se abraçados agüentamos o mundo contra ?
Até aquela noite, recordo como um cravo na boca, senti 
Oh, a lua em sua cara, carícia morta na pele que antes
Por que se agitava, por que seu corpo sucumbia como ?
     Você está doente ? Abrigue-se deixe que o 
Sentia-o tremer de medo ou melancolia, e quando me olhou 
Minhas mãos o laçavam outra vez buscando esse grito, 
esse tambor ardente e 
E veio outra lua, nos tocamos e compreendi que 
Ele estremecia de cólera e me arrancou a blusa como 
Eu ajudei, fui sua cadela, lambi o chicote esperando
Menti o grito e o pranto como se de verdade sua carne
(não mais o mordi, porém gemia e suplicava para lhe dar 
Pude crer, ele me alçou com o sorriso do começo, quando
Mas na despedida, tropeçou, e o vi voltar-se, amuado e 
Só em casa esperei abraçada aos joelhos até 
O primeiro a acusar-me foi
(eu o terei mordido, morder no amor não é
Agora sei, quando chegar a manhã em que
Ele não terá coragem para exibir a tocha aos
Outro fará por ele enquanto de sua casa
A janela entreaberta dá para a praça onde
Olharei até o final essa janela enquanto
Eu o morderei até o fim, morder no amor não é tão 

Tradução do trecho da confissão de uma bruxa, queimada no período da inquisição, transcrito poeticamente por Julio Cortárzar, 
em seu livro La Vuelta al día en ochenta mundos.

A Formiga

fevereiro 02, 2011

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As coisas devem ser bem grandes
 Pra formiga pequenina 
A rosa, um lindo palácio 
E o espinho, uma espada fina 
A gota d'água, um manso lago 
O pingo de chuva, um mar 
Onde um pauzinho boiando 
É navio a navegar 
O bico de pão, o corcovado 
O grilo, um rinoceronte 
Uns grãos de sal derramados, 
Ovelhinhas pelo monte.

                                        - Vinícius de Moraes -

Quando o amor ...

janeiro 30, 2011

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Acenar, siga-o, ainda que por caminhos ásperos e íngremes.
E quando suas asas o envolverem, renda-se a ele
ainda que a lâmina escondida sob suas asas possa feri-lo.
E quando ele falar a você, acredite no que ele diz,
ainda que sua voz possa destroçar seus sonhos,
assim como o vento norte devasta o jardim.
Pois, se o amor o coroa, ele também o crucifica.
Se o ajuda a crescer, também o diminui.
Se o faz subir às alturas e acaricia seus ramos mais tenros
que tremem ao sol, também o faz descer às raízes
e abala a sua ligação com a terra.
Como os feixes de trigo, ele o mantém íntegro.
Debulha-o até deixa-lo nu.
Transforma-o, livrando-o de sua palha.
Tritura-o, até torna-lo branco.
Amassa-o, até deixa-lo macio;
e então submete ao fogo para que se transforme em pão
no banquete sagrado de Deus.
Todas essas coisas pode o amor fazer
para que você conheça os segredos do seu coração,
e com esse conhecimento se torne um fragmento da vida.  

                        - Khalil Gibran -
                                                                             

A menina avoada

janeiro 26, 2011

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Imagem - Ann Sullivan    
            - Trecho do poema infantil A Menina Avoada, de Manoel de Barros - 

Frenesi

janeiro 25, 2011

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A felicidade corre sem parar
Bela é uma cidade velha

Na velocidade a tarde leva o teu olhar 
Longe descansar na estrela

                                                   - Fausto Nilo / Petrúcio Maia-Ferreirinha -

Pássaros Feridos

janeiro 23, 2011

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Foto: Mike McKavett
Existe uma lenda acerca de um "pássaro" que só canta uma vez na vida,
com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a terra.
A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro-alvar,
e só descansa quando o encontra.
Depois, cantando entre os galhos selvagens, 
empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido.
E, morrendo, sublima a própria agonia 
e despede um canto mais belo que o da cotovia e o de rouxinol.
Um canto superlativo, cujo preço é a existência.
Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu.
Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento ...
Pelo menos é o que diz a lenda.
O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável;
impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando.
No instante em que o espinho penetra não há consciência nele do morrer futuro;
limita-se a cantar e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota.
Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos.
Compreendemos.
E assim mesmo o fazemos...

- Colleen McCullough in Pássaros Feridos, 1985 -

Alma

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Há noite?
Há vida?
Há vozes?
Que espanto nos consome
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)
                                                                                                              - Camões -


Quarto Motivo da Rosa

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Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

                                                                             - Cecília Meireles -