O poeta e a lua

fevereiro 18, 2011

0 comentários
Em meio a um cristal de ecos
O poeta vai pela rua
Seus olhos verdes de éter
Abrem cavernas na lua.
A lua volta de flanco
Eriçada de luxúria
O poeta, aloucado e branco
Palpa as nádegas da lua.
Entre as esfera nitentes
Tremeluzem pelos fulvos
O poeta, de olhar dormente
Entreabre o pente da lua.
Em frouxos de luz e água
Palpita a ferida crua
O poeta todo se lava
De palidez e doçura.
Ardente e desesperada
A lua vira em decúbito
A vinda lenta do espasmo
Aguça as pontas da lua.
O poeta afaga-lhe os braços
E o ventre que se menstrua
A lua se curva em arco
Num delírio de luxúria.
O gozo aumenta de súbito
Em frêmitos que perduram
A lua vira o outro quarto
E fica de frente, nua.
O orgasmo desce do espaço
Desfeito em estrelas e nuvens
Nos ventos do mar perpassa
Um salso cheiro de lua
E a lua, no êxtase, cresce
Se dilata e alteia e estua
O poeta se deixa em prece
Ante a beleza da lua.
Depois a lua adormece
E míngua e se apazigua...
O poeta desaparece
Envolto em cantos e plumas
Enquanto a noite enlouquece
No seu claustro de ciúmes.

                                                                      (Antologia Poética - Vinícius de Moraes)

fevereiro 14, 2011

0 comentários



 
Procuremos somente a beleza,
que a vida
é um punhado infantil de areia ressequida.
Um som de água ou de bronze 
e uma sombra que passa... 

- Eugênio de Castro -

Uma vez só na vida

1 comentários
The kiss detail - Gustav Klimt
Só acontece uma vez,
não duas,
0s momentos sumindo feito ratinhos
que passam correndo pela vida,
depressa demais,
e apenas para os muito corajosos
os fortes,
os verdadeiros,
e quando o momento chegar
não o deixe passar por você,
pois num piscar de olhos
o amos se vai,
o momento morre,
fica um ressoar vazio
dentro da cabeça,
o seu coração saberá
quando o destino sussurou ao seu ouvido...
Ah, não tema,
querido amigo,
pois no final vale a pena
o preço,
o custo,
quando tudo esta perdido
mas se ganhou o amor,
quando o verdadeiro amor chega,
só existe um.
                                   - Danielle Steel / 1982 -

La hoguera donde arde una // A Fogueira Onde Arde Uma

fevereiro 05, 2011

1 comentários


Foi o primeiro a me acusar de
Sem provas e talvez doendo-lhe
Mas havia os que
É sabido em um povo perdido entre
O tempo pesa e move, e somente cada
Gente que vive de teias, e de lentas
Por acaso tem coração, porém quando falam é
De que podia ele me acusar se só havíamos ?
Impossível um mero despeito, depois daquela 
(talvez a lua cheia, a noite em que me levou 
Morder no amor não é tão estranho quando se 
Eu havia gemido, sim, em algum momento pude
Depois não falamos disso, ele parecia orgulhoso de
Sempre parecem orgulhosos se gememos, mas então 
Que memória diferente terá o ódio quando segue ao ?
Porque nessas noites nos queríamos mais que 
Sob a lua, em areias, enredados e cheirando a 
(eu o terei mordido, sim, morder no amor não é tão 
Nunca me disse nada, somente atento a
Perfumava meus seios com as ervas que minha mãe 
E ele, alegria do tabaco na barba, e tanta 
Nunca choveu quando íamos ao rio, às vezes 
Esse lenço branco e negro, passava-me lentamente enquanto
Nos chamávamos por nomes de animais doces, 
de árvores que irrompem 
Não havia fim para o interminável começo de cada 
(eu o terei mordido, ele cravado em mim e me
Em algum momento misturavam-se nossas vozes quando
Podia ter durado como o céu verde e duro nas minhas
Porque se abraçados agüentamos o mundo contra ?
Até aquela noite, recordo como um cravo na boca, senti 
Oh, a lua em sua cara, carícia morta na pele que antes
Por que se agitava, por que seu corpo sucumbia como ?
     Você está doente ? Abrigue-se deixe que o 
Sentia-o tremer de medo ou melancolia, e quando me olhou 
Minhas mãos o laçavam outra vez buscando esse grito, 
esse tambor ardente e 
E veio outra lua, nos tocamos e compreendi que 
Ele estremecia de cólera e me arrancou a blusa como 
Eu ajudei, fui sua cadela, lambi o chicote esperando
Menti o grito e o pranto como se de verdade sua carne
(não mais o mordi, porém gemia e suplicava para lhe dar 
Pude crer, ele me alçou com o sorriso do começo, quando
Mas na despedida, tropeçou, e o vi voltar-se, amuado e 
Só em casa esperei abraçada aos joelhos até 
O primeiro a acusar-me foi
(eu o terei mordido, morder no amor não é
Agora sei, quando chegar a manhã em que
Ele não terá coragem para exibir a tocha aos
Outro fará por ele enquanto de sua casa
A janela entreaberta dá para a praça onde
Olharei até o final essa janela enquanto
Eu o morderei até o fim, morder no amor não é tão 

Tradução do trecho da confissão de uma bruxa, queimada no período da inquisição, transcrito poeticamente por Julio Cortárzar, 
em seu livro La Vuelta al día en ochenta mundos.

A Formiga

fevereiro 02, 2011

0 comentários

As coisas devem ser bem grandes
 Pra formiga pequenina 
A rosa, um lindo palácio 
E o espinho, uma espada fina 
A gota d'água, um manso lago 
O pingo de chuva, um mar 
Onde um pauzinho boiando 
É navio a navegar 
O bico de pão, o corcovado 
O grilo, um rinoceronte 
Uns grãos de sal derramados, 
Ovelhinhas pelo monte.

                                        - Vinícius de Moraes -